quinta-feira, 4 de março de 2010

Vovó-Zinha




Lembranças...


Desejaria conhecer TODAS as nuances de minha alma..., todas as decodificações de meu espírito humano.

Ah, se Deus me desse tal ciência profunda. Saberia desde alguns dias atrás o significado da grande agitação em minha alma. Uma enorme inquietude que não me era familiar. Bem mais profunda do que meras emoções dosadas de uma ebulição de adrenalina!

Penso se eu soubesse "decifrar" o que estava prestes a acontecer com a minha vovoZinha querida – Teria tempo de correr e debruçaria aos seus ouvidos com um respirar meio ofegante, mas sussurraria para ela:

Eu te amo. Amo-te muito e a senhora é muito importante para mim. Ainda que esta dor seja grande, maior é o meu amor por ti- Não que eu duvidasse de que ela suspeitasse de meu amor por ela, mas eu queria que ela tivesse tal certeza na eternidade...

Todavia na terça-feira dia 21/04. A minha vozinha sofreu um enfarte e foi socorrida e entubada na UTI (respirando por aparelhos), porém o seu coração não resistiu aos outros enfartes que se seguiram... E na madrugada da quinta-feira dia 23/04 ela  veio a falecer no hospital.

Ah, como eu desejei ter mais uma chance de confortá-la, novamente como em várias conversas que tive com ela e falar-lhe acerca do Evangelho...,

Na maioria das vezes que falávamos do Evangelho, eu chorava de emoção. Pois, podia ver ali em minha frente uma idosa cheia de fé e verdade em Cristo.

Que perda, que dor, que mal....

Mas, sei, aliás, todos nós da família acreditamos que ela está descansando de suas obras nos braços do Pai. É esta a nossa esperança e consolo!

Então, o salmo escrito por mim abaixo revela a saudade de uma pessoa que assim como ela viveu uma vida não muito fácil, porém, sofrida e doída....

Mas, na sua velhice recebeu a Graça do Evangelho de Cristo.



Um Salmo para o dia de hoje...


Eu sofro em saber de que a vida é frágil como uma taça de cristal e se esvai como o hálito. Poeticamente pode se dizer: "Seca-se a erva e cai-se a flor...”.

E de repente tudo que havia de vida se vai e ao longo do tempo se esquece de que aqui ou ali se viveu uma vida.

O sofrimento persegue o homem desde o seu nascimento e morte até que a sua velha alma penetre no infinito da eternidade sem começos.

A esperança guardada no peito de quem vive e já viveu o bastante para sofrer na vida é o cálice da amargura de quem existe por existir ou apenas lida para sobreviver nesta vida.

Vida vadia, vida bandida.

Ela vem e nos rouba os sonhos, a saudade de coisas que jamais experimentamos.

Vadia porque vaga vagabundamente sem nenhuma percepção do que seja bom e belo para se apreciar sem o tal faz-de-contas da representação no teatro da existência...

Abro os olhos e o que vejo é o sofrimento. Pois, o vejo e o contemplo e não existe outro horizonte linear a ser visto!
Tudo que se apresenta no plano natural e linear provém da  absurda perplexidade!
O flagelo de uma alma exaurida de forças...
O mar já não existe mais o que ouço é o bramido das ondas tempestuosas.
O outono se foi e ainda o sino da primavera não tiniu!
É hora de se lembrar das coisas boas que a vida nos trouxe.
O belo e o exuberante são encontrados no seio da mãe Natureza.
E não há mais oxigênio bastante para tanta asfixia de um ar carregado de gases mortíferos. Posto que os lírios e as flores do campo foram queimados.
O cheiro é de morte!
Porventura poderá um fruto ser fruto sem que houvesse uma semente-de-vida para a vida oferecer?
Lá vem ela cheia de gabo e de energia para desfilar nas passarelas da melancolia.
São lampejos lúcidos de uma mente que transcende o corpo e a dor, e mergulha para o sublime...
Talvez seja o ectoplasma hominal na corrida final que antecede o túnel do tempo de vida que era vivida debaixo das tiranias do próprio existir para o Mundo e por pertencer ao mundo das fantasias do ENGANO!
Daí uma farsa de se viver uma vida por detrás da máscara da existência e de sempre atuar como um personagem dramático no teatro da vida...
Ora no anfiteatro da mente!
Ora por trás das cortinas da existência, mas longe da essência de VIVER!
Oh, minha alma, porque choras o lamento de outrem?
Por que se definhas, posto que diante de ti esteja a chance de se escolher em viver e não apenas sobreviver à existência?
A sua sede e fome são de justiça?
Ou se enfastia do alimento humanista e filosófico de sábios pensadores?
Oh! minha pobre alma. Onde estás o teu Deus?
Ele te ouve, Ele escuta os teus gemidos de dia e de noite quando tu dizes em sussurro: "Deus a angústia está próxima e não há quem me livre"(Salmo da cruz.22).
A vida se vai e a esperança fica, a memória deixa os seus rastros, o caminho é o legado dos homens bons.
A morte se ver ao longe e não obstante de perto, a percebemos quando ela chega e se manifesta por sua própria presença de desolação, perda, tristeza e dor.
O mar é visto novamente, conquanto num fosco azul sem o brilho do sol, onde as ondas escuras e densas impelem a alma num caminho de escuridão no aprofundar dos abismos abissais.
Onde a Luz não alcança... Quem me dera puder vislumbrar no mais puro brilho do céu anil?
Quem me dera compreender a fissura que a dor provocara na minha alma. A latente expectativa de deslumbrar no mais límpido arco íris emocional.
Do íntimo lugar onde as matizes e os contrastes nada impedem diante da tonicidade e do tom aspergido sobre o meu ser!
Oh, se eu pudesse ver a distância que me separa de meu próprio ser.
Ainda que na longevidade que separa a vida de um ser unicelular!
Entenderia e aprenderia de que ainda seria: MENINO.
Ah, se dez vidas eu tivesse, todas eu daria.
Só para sentir o teu amor; a tua vida a cada dia!
Quero voltar ao primeiro amor, à fonte da alegria!
Vou viver...,
Vou morrer...,
Vou viver...,
Por Ti.

Alfredo Serafim

(Escrito dia 14 de maio 2009 ás 11:56)