terça-feira, 18 de maio de 2010

Um homem sem dolu

No vernáculo português a palavra dolo (lat dolu) – significa: engano; fraude; astúcia, traição e má-fé. E na perspectiva sócio-cultural todas estas más ações podem ser praticadas a fim de se prejudicar o direito alheio, ou até mesmo o bem-estar do próximo.
O Novo Testamento narra a cena de um encontro entre Jesus e um judeu chamado Natanael. A Escritura registra: “Filipe achou Natanael, e disse-lhe: Havemos achado aquele de quem Moisés escreveu na lei, e os profetas: Jesus de Nazaré, filho de José. Disse-lhe Natanael: Pode vir alguma coisa boa de Nazaré? Disse-lhe Filipe: Vem, e vê. Jesus viu Natanael vir ter com ele, e disse dele: Eis aqui um verdadeiro israelita, em quem não há dolo. Disse-lhe Natanael: De onde me conheces tu? Jesus respondeu, e disse-lhe: Antes que Filipe te chamasse, te vi eu, estando tu debaixo da figueira. Natanael respondeu, e disse-lhe: Rabi, tu és o Filho de Deus; tu és o Rei de Israel. Jesus respondeu, e disse-lhe: Porque te disse: Vi-te debaixo da figueira, crês? Coisas maiores do que esta verá. E disse-lhe: Na verdade, na verdade vos digo que daqui em diante vereis o céu aberto, e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem.” (Jo. 1.45-51). Neste tempo a Nação de Israel estava subjugada e oprimida pelo governo romano. E nas cabeças destes simples e sofridos homens, Jesus seria o Messias tão aguardado pelos judeus. E foi nesta falsa certeza ideo-política que a maioria dos discípulos de Cristo se focou. Penso nos zelotes e nos revolucionários políticos [um tipo de oposição ao governo menos radical que os zelotes].
Ora, a resposta áspera de Natanael a Felipe: “Pode vir [surgir] alguma coisa boa de Nazaré?”-Não apenas ecoava a descrença num homem oriundo da ralé e da classe pobre dentre os judeus.
Todavia refletia a angústia no peito de cada remanescente hebreu e filho de Abraão. Posto que a estes judeus, inseridos no CONCERTO feito entre Deus e Abraão, que de seu descendente (Cristo) Deus faria com eles, uma Aliança eterna e irrevogável... Poderia de alguma forma Natanael carregar no peito um coração “poético” e “fragmentado” pela dolorosa Esperança, e crer que naquele momento de que em algum lugar de Nazaré estava a esperança do sonho de seu povo. Posto que as profecias dissessem ao contrário acerca do Messias filho de Davi?
Pensava ele: Nossos passos são seguidos pelo mal, e tantas guerras já mancharam nossos sonhos. Tantas vidas que amamos, o destino apagou, nossos dias são tingidos de vermelho...
Mas, quando ainda houver profetas em forma de homens falando de Jesus, o amor possa ainda existir nos corações... Então, disse Felipe: “Vem, e vê”.
Muitas pessoas falam de liberdade sem nunca tê-la sentido por dentro...
Suas mãos não têm correntes pode ir a onde querem, acham que são livres!
Mas, essas pessoas fogem da solidão com uma presa foge do predador...
Querem hoje todo o prazer do mundo porque não sabem se terão amanhã – Que pena são escravos de suas próprias dúvidas...
Há quem afirme de que os caminhos do coração são indecifráveis.
Você vê gente sofrendo de tudo, e vivendo como se tudo fosse normal. Você, por outro lado, vê gente sofrendo de nada como se sofresse de tudo...
A psicologia levou anos para descobrir o que há séculos já não mais estava encoberto apenas se via de outra maneira, me refiro aos ensinamentos de Jesus... Atualmente a fala dos psicólogos ratifica o que Jesus havia ensinado aos seus discípulos há milênios.
A “psicologia” de Jesus era simples e se servia das metáforas que as pessoas traziam ou compreendiam. Tudo, porém, tinha ver com “aquela” pessoa, e não com uma matriz psicológica universal.
Assim, com Jesus não há padrões... O padrão é o individuo...
Sou eu, é você - Somos nós.
Sim,
Desenvolve-se no foro íntimo de cada um de nós!
É individuidade mesmo! Rsrsrsr
E para Cristo Jesus somos o sal da terra indiscutivelmente!
Daí a Sua declaração a Natanael: “eis aqui um verdadeiro israelita onde não há dolo!”...
Desse modo, cada pessoa demanda uma psicologia singular, por mais que os modelos psicológicos possam ajudar aqui e ali. No entanto, depender exclusivamente deles é pura tolice...
O modelo de Paulo, a confrontação, é o que vejo que melhor ajuda as pessoas, pois, de fato, trata-se de um método não metódico, é que busca discernir a essência da questão, e trata dela cara a cara, sem medo de afirmar, de indagar, de sugerir, de provocar, de perturbar mesmo... — até que a verdade vá aparecendo, e, assim, a pessoa vá se enxergando e tomando as decisões práticas quanto a debelar o vício do sintoma como mal a ser tratado como causa... Sem que o seja.
Os pudores psicológicos atrasam em demasia a cura das pessoas...
Vejo pessoas oito, dez, doze anos em um terapeuta, ruminando os mesmos bagaços, pagando caro para serem ouvidos sem que isto deslinde qualquer coisa em seus interiores, até que chegue o dia da verdade...
A surpresa para elas é que o que durara anos, por vezes em uma, duas, três semanas, ou em poucos meses, cede...; e, então, começa a abrir o espaço interior para que, pela via da confrontação, a pessoa comece a parar de chocar seus quase/dramas; e, assim, sem pena de si mesmo, sem transferências de nada para ninguém, sem auto-piedade ou autocomiseração, o individuo comece a reagir; e, em não muito tempo, comece a ficar perplexo com os resultados...; sem saber a razão de não ter que ser um processo necessariamente tão longo e demorado no atingimento dos desejados resultados...
Na realidade o que a maioria das pessoas necessita é do encaramento na e da verdade!
A receita de cura de Isaías é simples [cap.58]: liberte os oprimidos, quebre cadeias nos outros, franqueia a vida ao próximo, não fuja dele; e mais que isto: abra a sua própria alma com o aflito [deslocando o foco do “si - mesmo” para o outro] — pois, então, se diz: A tua cura brotará sem detença!...
Quem se esquece de si e arranja olhos para a vida, em geral ficará curado enquanto limpa feridas e cuida de angustias alheias...
Aquele, porém, que apenas cuida de si mesmo, de suas supostas dores, e concentra-se exclusivamente em sua angustia como elemento pivotal da existência universal, esse pode contratar o melhor psicólogo para que lhe ande a tira-colo, pois, ainda assim, jamais ficará curado...
Enquanto escrevo este texto-terapêutico para mim mesmo, o meu velho mais uma vez é internado no hospital – E como tenho acompanhado de perto o seu sofrimento e dor nestas idas e vindas... O que me vem à mente é o exemplo do bom samaritano.
Ninguém sabe em que espírito o Samaritano vinha sem seu caminho... Entretanto, pouco importa se ele vinha cantando, alegre, feliz e grato, ou se vinha sofrendo, angustiado e infeliz... Sim, o que importa é que ele olhou para o outro, o outro pior do que ele, o outro sem autodeterminação, caído no caminho... E mais: fez isso sem que importasse quem ele ou o outro fossem um para o outro...
Sem que fosse significativo como o Samaritano estivesse se sentindo, o que valeu foi o ato, foi o feito, foi à parada e o levantar do homem...
Sim, o importante não era a subjetividade, mas a objetividade da decisão...
O que me ressinto mesmo é do fato que se houvesse entendimento do Evangelho, e amor e limpidez de propósitos, todo verdadeiro pastor de almas naturalmente seria um psicólogo.
Mas quase não há tal coisa... A maioria dos pastores está tão perdida que nem mesmo dá conta de sua própria alma, quanto mais da dos outros!...
Portanto que fique discernido como cura em cujo coração não se há mais engano/dolo: A melhor terapia desta vida sempre será o serviço em amor!
Repetindo: A melhor terapia desta vida sempre será o serviço em amor!
Que em nome de Jesus, isto sirva de doce admoestação para você: A melhor terapia desta vida sempre será o serviço em amor!
Um homem sem dolo é um homem sem o engodo do diabo interiorizado dos crentes, e sem o Diabo que é o pai do engano!

Mano Serafim................................................. Texto inicialmente escrito 28/03/09