terça-feira, 31 de agosto de 2010

Um estigma é quebrado pela excelência da graça

Historicamente se sabe que a antiga cidade Fenícia de Tiro (hoje o Líbano) era palco do progresso e das articulações comerciais marítimas (mediterrâneo) de uma época marcada pela prosperidade que abarcava um vasto comércio fundando colônias na costa e ilhas vizinhas do Mar Egeu, na Grécia, na costa do norte de África, em Cartago, na Sicília e na Córsega, na Península Ibérica e mesmo para além dos pilares de Hércules em Gadeira (Cádis).
No livro do profeta Ezequiel (592 AC - 570 AC) encontra-se algumas profecias contra Tiro. Todavia, é no cap. 28 que nos deparamos com algo mais sombrio. Deus envia o Profeta Ezequiel para profetizar a ruína e devastação de Tiro e de seu “Principado” (príncipe, potestade local).
O profeta compara o estado do príncipe de Tiro com o mesmo desejo deste ser impessoal, tido como o diabo, a velha serpente e satanás – o adversário.
O mesmo arquétipo de Lúcifer se instala no príncipe de Tiro. Leia a segunda parte da profecia de Ez. 28 e veja a analogia arquetípica entre ambos.
“Filho do homem, levanta uma lamentação sobre o rei de Tiro, e dize-lhe: Assim diz o Senhor DEUS: Tu eras o selo da medida, cheio de sabedoria e perfeito em formosura. Estiveste no Éden, jardim de Deus; de toda a pedra preciosa era a tua cobertura: sardônica, topázio, diamante, turquesa, ônix, jaspe, safira, carbúnculo, esmeralda e ouro; em ti se faziam os teus tambores e os teus pífaros; no dia em que foste criado foram preparados. Tu eras o querubim, ungido para cobrir, e te estabeleci; no monte santo de Deus estavas, no meio das pedras afogueadas andavas. Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que se achou iniqüidade em ti. Na multiplicação do teu comércio encheram o teu interior de violência, e pecaste; por isso te lancei, profanado, do monte de Deus, e te fiz perecer, ó querubim cobridor, do meio das pedras afogueadas. Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor; por terra te lancei, diante dos reis te pus, para que olhem para ti. Pela multidão das tuas iniqüidades, pela injustiça do teu comércio profanaste os teus santuários; eu, pois, fiz sair do meio de ti um fogo, que te consumiu e te tornei em cinza sobre a terra, aos olhos de todos os que te vêem. Todos os que te conhecem entre os povos estão espantados de ti; em grande espanto te tornaste, e nunca mais subsistirá.” (Ez. 28.12-19).
Ora, o príncipe de Tiro havia sido enfeitiçado pela sua própria arrogância e prepotência, e loucamente cruzou um caminho sem volta, o qual o resultou em total destruição e juízo divino sobre si e sobre toda a cidade, cuja península localizada no mar Egeu fora totalmente destruída pelos seus inimigos.
Daí o estigma criado até os dias de Jesus em relação às pessoas que pertenciam ás regiões de Tiro e Sidon.
Leia comigo:
“E, partindo Jesus dali, foi para as partes de Tiro e de Sidom.
E eis que uma mulher Cananéia, que saíra daquelas cercanias, clamou, dizendo: Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim, que minha filha está miseravelmente endemoninhada.
Mas ele não lhe respondeu palavra. E os seus discípulos, chegando ao pé dele, rogaram-lhe, dizendo: Despede-a, que vem gritando atrás de nós.
E ele, respondendo, disse: Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel.
Então chegou ela, e adorou-o, dizendo: Senhor socorre-me!
Ele, porém, respondendo, disse: Não é bom pegar no pão dos filhos e deitá-lo aos cachorrinhos.
E ela disse: Sim, Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus senhores.
Então respondeu Jesus, e disse-lhe: Oh mulher, grande é a tua fé! Seja isso feito para contigo como tu desejas. E desde àquela hora a sua filha ficou sã.”
Chamo á sua atenção para duas figuras nestes dois textos apresentados por mim acima (Ez.28 e Mt.15.21-28).
A primeira figura é a do príncipe de Tiro, cujo coração se tornou diabo, de tão malévolo que se tornou – de modo que a sua obsessão pelo poder e pela glória do mundo; pela auto-adoração narcisista e o seu egotismo fetichista, posto que o seu verdadeiro eu, o transformara num ser caído e soberbamente destituído da graça e da misericórdia de Deus.
Ele se tornara um adversário para Deus, desejando ser adorado como o Altíssimo (subirei no céu dos céus e me assentarei no seu trono).
A segunda figura é representada por uma mulher gentia, nascida na Fenícia (região de Tiro e Sidon). E que carregava uma ‘marca satanizada’ de uma cultura inexorável de uma época onde a boa fama, de ser um judeu e filho da casa de Israel poderia ter acesso livre ao mestre nazareno e suas promessas messiânicas. Embora esteja escrito nas Escrituras que ele tinha vindo para os seus e os seus não O receberam...
A mulher aflita pelo estado humilhante de sua filha fez com que a mesma insistisse em ser recebida por Jesus. É óbvio que nesta ocasião Jesus buscava repouso e anonimato com os seus discípulos, porém, a mulher rompe com o paradigma judaico (a salvação vem dos judeus e para os judeus) e se lança aos pés do bom mestre – “Então chegou ela, e adorou-o, dizendo: Senhor, socorre-me!”. Imediatamente a voz do mestre invade o ambiente da perplexidade humana – “Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel.” - ou seja, eu vim para os meus!
Parecia que o desejo de seus discípulos seria atendido por Jesus – “Despede-a, que vem gritando atrás de nós.” Disseram os seus discípulos sem compreensão alguma acerca de sua vontade.
Jesus reproduz um velho adágio entre os judeus: “Não é bom pegar no pão dos filhos e deitá-lo aos cachorrinhos.”
O que ele diz a ela, senão?
Não é licito dar atenção aos que não sabem o que e a quem adoram e nem aceitam o meu testemunho que dou acerca de Deus – seria o mesmo que dar o que é santo aos cães e deitar pérolas aos porcos!
Certamente um adágio popular daquela época, que ambos conheciam o provérbio então dito energicamente por Jesus. De imediato, a mulher replica desesperadamente e com fé que provoca a Deus: “Sim, Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus senhores.” Isto é, os desprezíveis deste mundo louco e caído, e que não foram chancelados pela marca de Abraão, porém, serão chamados para se assentaram na mesa do Reino de Deus - ainda que nos sobejos que caem da mesa de seu senhor! Está Escrito : "Os últimos serão os primeiros"
Parece que esta mulher entendera o que os seus irmãos judeus não puderam entender – a mensagem do Reino é para todos os que crêem no Evangelho da Graça de Deus, pois, o Evangelho é poder de Deus para a salvação de todo aquele que crer...
Creia! Deus vem em busca de todos...
Sejam loucos, endemoninhados, mancos, e aleijados de alma!
E para a surpresa de todos, mais uma vez o mestre é esmagado pela reação da fé humana diante do absurdo e do paradoxo[...]
De um lado, uma mulher desesperada e sendo esmagada por lhe faltar solução para a sua filha possessa por um demônio, e talvez, a mesma alheia a fé dos judeus e longe de discernir o que seria servir ao único e verdadeiro Deus.
Do outro lado a figura de Jesus representando o Deus da Graça e amor sendo esmagado pela fé e reconhecimento de uma mulher desprezível aos olhos da sociedade e incircuncisa aos olhos da religião.
O que este encontro nos ensina é que o Deus do universo não agüenta ver uma alma aflita de joelhos clamando por suas misericórdias – Ele atende ao aflito e ao contrito de coração.
Na resposta decisiva de Jesus a mulher – “Oh mulher, grande é a tua fé!”, percebemos o quanto a fé de uma pessoa pode transpor o infinito e se apropriar dos benefícios irrevogáveis do Cordeiro que foi morto antes da fundação do mundo!
Parece que naquele instante de fé e de graça sobre graça, a mulher Cananéia entendeu que o poder de Jesus poderia mudar qualquer situação nesta esfera linear e cósmica – algo, que jamais saberemos de fato o que, conquanto foi-lhe dado como PODER DE CRER NO POSSÍVEL DO IMPOSSÍVEL.
Sendo assim, Jesus a disse: “Seja isso feito para contigo como tu desejas.”- E o desejo dela era ver a sua filha livre do mal que lhe atormentava.
Ora, “E desde àquela hora a sua filha ficou sã.”

Nele, Aquele que dispensa o protocolo e despedaça os paradigmas,

Mano Serafim