segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A cosmovisão do maluco beleza

“Um dia, numa rua da cidade, eu vi um velhinho sentado na calçada

Com uma cuia de esmola e uma viola na mão

O povo parou pra ouvir, ele agradeceu as moedas

E cantou essa música, que contava uma história

Que era mais ou menos assim:

Eu nasci há dez mil anos atrás

e não tem nada nesse mundo que eu não saiba demais (2x)”

Na cabeça (percepção) do maluco beleza (Raul Seixas), o próprio interlocutor (o velho sentado com uma cuia de esmolas e viola na mão) seria o “espírito” da História dentro do tempo e do espaço...
Enquanto que na mente de Nietzche, o "velho profeta de cuia e viola na mão" seria o Profeta Zaratrusta que viera antes dos tempos (rsrsrs!)...
Todavia deve-se considerar aqui, todo um vislumbre, cuja percepção esteja no plano animal e linear. Esta era a forma que o cantor via o mundão a sua volta.
Eu nasci há dez mil anos atrás” – frase que ecoa ainda hoje nos anais da história, mas pena que tenha sido interpretada erroneamente pela cristandade, a qual a define como demonismo cultural...
Uma alusão negativa que os cristãos (na sua maioria) fazem da figura de Adão, de Matusalém e do Diabo (ser impessoal) - Satanás, principalmente quando se afirma"eu nasci há dez mil anos atrás"(ai o cara que ouve  a música cogita quem de fato seria este espirito que viveu há dez anos atrás)...Mas a pergunta ainda persiste, quem seria essa pessoa que viveu há dez mil anos atrás?
No meu ver, seja algo que perpassa um relato sinóptico dos acontecimentos num mundo - em que o egotismo humano se instalou na Natureza (mudando a sua forma e estrutura natural de renovo) de tal forma que a sujeitou a tamanha vaidade e destruição.
É o bicho-homem (“primata”) civilizado se distanciando do amor e da graça do Criador nos atalhos de suas elucubrações sem a percepção de sua existencialidade e propósito de habitar neste Universo e seus Versos.

“Eu vi cristo ser crucificado

O amor nascer e ser assassinado

Eu vi as bruxas pegando fogo pra pagarem seus pecados,

Eu vi,

Eu vi Moisés cruzar o mar vermelho

Vi Maomé cair na terra de joelhos

Eu vi Pedro negar Cristo por três vezes diante do espelho

Eu vi,

Eu nasci

(eu nasci)

Há dez mil anos atrás

(eu nasci há dez mil anos)”

Representado pelo “espírito” da História, o velho “profeta” vaticina na medida em que o calendário retrocede até Moisés atravessando o Mar Vermelho, a pés a secos, juntamente com os hebreus (êxodo do Egito).
Eu vi Cristo ser crucificado” o calendário (cronos) pára – O Cristo de Deus se revela como um divisor de águas da História-História – o mundo contemplou um milagre histórico e acena para todas as gerações futuras, i.e., a ENCARNAÇÃO. Em seguida os fatos cronológicos se concentram posteriormente nas entrelinhas imaginárias do tempo, entretanto, a verdade é o que o amor tem sido assassinado de geração em geração sem os conteúdos do Evangelho da Graça.
Quando ele canta: “Eu vi as bruxas pegando fogo pra pagarem seus pecados”, isso se temporalizou e se corporificou na idade média( e nos formou filhos do obscurantismo religioso e pagão), em que a “igreja” condenou todas as práticas que seriam ilícitas diante da ortodoxia papal e de Roma. Na Idade Média, muitos cristãos sinceros e genuínos foram queimados vivos intitulados de: bruxos, alquimistas, magos e hereges... Verdadeiras nuances de um pseudo-cristianismo histórico medievo!
Ele também narra que flagrou Maomé se prostrando para receber as tábuas da revelação do Islã... Podemos recordar as cruzadas cristãs na Europa e Oriente Médio e delas subtrairmos nossas próprias conclusões – leia a história das cruzadas.
Eu vi Pedro negar Cristo por três vezes diante do espelho” – ora, segundo os evangelhos esta frase (sem a metáfora do espelho) do velho profeta na canção do maluco beleza, já havia sido predita pelo própio Jesus a Simão Pedro. E na história dos evangelhos revela que o homem sempre negará ao Cristo com suas atitudes e medos, ainda que o prometa verbalmente: “Eu te seguirei e se for preciso darei a minha própia vida pela tua causa!”

"E não tem nada nesse mundo que eu não saiba demais (2x)

Eu vi as velas se acenderem para o Papa

Vi Babilônia ser riscada do mapa

Vi conde Drácula sugando o sangue novo

e se escondendo atrás da capa

Eu vi,

Eu vi a arca de Noé cruzar os mares

Vi Salomão cantar seus salmos pelos ares

Eu vi Zumbi fugir com os negros pra floresta

pro quilombo dos palmares"

Nesta estrofe o poeta-místico, Raul Seixas faz uma viajem desde o berço das civilizações na antiga Babilônia (Ur dos caldeus, Mesopotâmia, Iraque –regiões que sempre foram palcos de guerras e conflitos na história do Oriente Médio) e arma sua tenda no quilombo junto aos negros fugitivos dos tempos do Brasil Colônia... Em outras palavras: É o desejo violento que o homem possui de manipular, oprimir e escravizar (como se fosse propriedade sua) o seu semelhante!
Em seguida ele contextualiza toda uma geração da qual ele faz parte - critica uma geração que dá crédito aos cinemas, a ficção e a aparência, deixando de lado os valores essenciais de uma sociedade realista e madura, embora o próprio Raulzito aderisse ao movimento hippie (movimento liberal contracultura eclodido na década de 60, cujo slogan que se propagava era - “paz e amor”).
O Drácula talvez simbolizasse o poder e a representação do Estado como um ente politizado vampirizado e espoliador dos cidadãos e dos trabalhadores...
O link feito entre Noé e Salomão configura duas gerações distantes, porém, com os mesmos desejos e anseios pecaminosos de sempre – Nos dias de Noé, segundo o A.T., o qual levou 120anos para construir a Arca (barca flutuante) e neste ínterim, o próprio Noé apregoava a mensagem “APOCALIPITCA” de Deus aos homens do antigo mundo. E não houve arrependimento de nenhum deles, e salvos foram exceto Noé; a sua esposa; os seus três filhos e suas respectivas noras, e cada casal de animais segundo a espécie que havia na terra nestes tempos antediluvianos (Segundo a Bíblia).
Com a mesma aridez espiritual se encontrava à geração petrificada e insensível ao chamado de Deus nos dias do rei Salomão, filho de Davi. Os “seus salmos cantados pelos ares” revelam a insensatez de uma geração doente e alienada de Deus (eles não davam ouvidos ao que era cantado como significado de sabedoria divina pelos lábios poéticos do profeta e rei) – imagine a sabedoria deste homem que compôs centenas de provérbios que eram verdadeiros ditames para um bom viver em harmonia entre os homens em sociedade [em relação ao próximo], no relacionamento submisso a soberania de Deus, e a natureza como peça de um ecossistema – logrando uma metanóia na vertente de total sustentabilidade e preservação do meio ambiente para as próximas gerações.
Salomão viveu a vida com toda a intensidade de um monarca na sua gloria e apogeu!
Ele discerniu que debaixo do céu tudo era relativo e que absoluto mesmo só quando a vontade de Deus era realizada na vida subjetiva do homem crente!
Um salto para a nossa história do Brasil colônia refaz uma arquitetura dos casarões e engenhos com as suas senzalas – diga assim de passagem, a maior de todas as humilhações que um homem poderia ser submetido - a escravidão!
Zumbir fugir” – Presume que cada gente; cada povo; em cada êxodo, cada pacto e em cada movimento, exige um líder, e Zumbi não poderia ser descredenciado das prerrogativas que o fazia um “messias negro” – liberdade e salvação para os seus consangüíneos era a sua ideologia, afinal o Cristo de Deus (universal) não veio primeiramente para os seus (judeus)???

"Eu vi,

Eu nasci

(eu nasci)

Há dez mil anos atrás

(eu nasci há dez mil anos)

E não tem nada nesse mundo que eu não saiba demais (2x)

Eu vi o sangue que corria da montanha

quando Hitler chamou toda a Alemanha

Vi o soldado que sonhava com a amada numa cama de campanha

Eu li,

Eu li os símbolos sagrados de Umbanda

Eu fui criança pra poder dançar ciranda

E, quando todos praguejavam contra o frio,

eu fiz a cama na varanda"

Aqui nesta estrofe, a história mais uma vez se resvala num arquétipo do próprio Diabo, aliás, na pré-encarnação do Anticristo – A figura de um líder enigmático e tirânico, Adolfo Hitler (inicialmente venerado por toda a Alemanha, inclusive, no inicio fora apoiado pelas igrejas: católica a protestante)
O nazismo emergiu das profundezas abissais de um coração totalmente desprovido do amor de Deus e de amor e afeto pela raça humana – tal sentimento de morte e ódio reconstrói a figura do Diabo de fora, neste caso, se tratando da pessoa de A. Hitler, o diabo é o que procede de dentro dos homens (coração perverso e vil).
Ora, Hitler, segundo relatos factuais, era uma pessoa extremamente possessa de ódio, morte e destruição! Ele se alimentava do ódio contra os semitas (principalmente judeus); negros e contra os homossexuais, aliás, o cara era um sociopata inveterado.
O fato de o “velho profeta” ter visto o “sangue que corria pela montanha”, nada mais se configura com as barbáries nazistas contra milhões de judeus na segunda guerra mundial.
Sonhos abortados e vidas ceifadas, não somente dos judeus e dos inimigos de guerra dos alemães, mas dos próprios jovens soldados alemães que “sonhava com a amada numa cama de campanha” (estavam na esperança de logo retornarem para suas famílias- mas a história foi outra)- tudo em nome de um homem doente obstinado pelo o seu ódio existencial e seu narcisismo...
"Eu li os símbolos sagrados de Umbanda" - o própio Raul era uma figura bastante esotérica, e neste verso ele declara a sua crença sincretista que vai de uma roda em terreiros de umbanada (tido como baixo espiritismo) ao "espaço sideral" num disco voador (acredita-se em uma força, na energia divina e cósmica que rege o Universo)...

"Eu nasci

(eu nasci)

Há dez mil anos atrás

(eu nasci há dez mil anos atrás)

E não tem nada nesse mundo que eu não saiba demais

não, não porque

Eu nasci

(eu nasci)

Há dez mil anos atrás

(eu nasci há dez mil anos atrás)

E não tem nada nesse mundo que eu não saiba demais

Não, não

Eu tava junto com os macacos na caverna

Eu bebi vinho com as mulheres na taberna

E quando a pedra despencou da ribanceira

Eu também quebrei e perna

Eu também,

Eu fui testemunha do amor de Rapunzel

Eu vi a estrela de Davi brilhar no céu

E praquele que provar que eu tou mentindo

eu tiro o meu chapéu

(eu nasci)

Eu nasci

(há dez mil anos atrás)

Eu nasci há dez mil anos atrás

(e não tem nada nesse mundo que eu não saiba demais)"

Nesta estrofe da música o cantor se desfaz de suas epifanias na História e surta diante das perplexidades e do absurdo que ambiguamente vive a humanidade...Na virtualidade, o homem procura se esconder da realidade do propio existir sem a volição de Deus. E aí a criação de um "avatar" que lhe personifique ( lhe parece ser uma boa idéia), ou mesmo lhe oculte diante da verdadeira realidade da vida e de seus problemas triviais...
Num olhar caleidoscópico de várias matizes, o maluco psicodélico refaz uma analogia do homo-sapiens com o primata não evoluído, o macaco. Ele diz que estava com os macacos na caverna e sua odisseia evolutiva se planifica no episódio dele ter ido tomar vinho com as mulheres na taberna...
Sim, nosso poeta pouco compreendido em sua época devido ao seu jeito louco de ser, pôde enxergar para onde e como caminha a humanidade..
O maluco beleza se foi deste mundo de maneira trágica e chocante – eu me atreveria em dizer sem nenhum preconceito e juízo, Raul sempre cantou (profetizou): “Eu que não me sento No trono de um apartamento Com a boca escancarada Cheia de dentes Esperando a morte chegar...” e da sua boca saiu o decreto de sua própria morte, posto que ele faleceu em seu apartamento com uma parada cardíaca, e sob suspeita de uma crise de pancreatite fulminante - (ouvir: música - Ouro de tolo)
Inevitavelmente e da maneira que ele escolheu viver intensamente e numa paranóia, teve suas angustias muitas vezes “supridas” com altas doses de bebidas alcoólicas e baseado de maconha (infelizmente), as “viagens” não puderam evitar a sua bronca e desaprovação com relação ao mundo e com as pessoas que fazem o mundo desta forma.
Decerto que desde cedo ele havia percebido que o mal poderia ser materializado pelas ações dos homens maus – daí o bom senso de andar na contra-mão dos maus homens que transformam o mundo, a terra e as coisas num inferno existencial.
Eu confesso que curti muito Raul Seixas, e desde cedo entendi que nem por isso deveria fazer coisas que ele fez ou fazia pessoalmente, eu apenas tentava entendê-lo (sua mensagem) nas músicas que compunha, as quais interpretava com seu jeito doidão e largado e com a sua voz rouca (muitas vezes desafinada).
Negativa-mente, Raul absorveu toda esta energia maligna que dissolve a alma humana, resumindo-a a pasta, sem solução alguma. Ele se desiludiu com a vida pelas obras dos homens.
O maluco beleza se perdeu no meio de seus devaneios e delírios diante da vida que logo mostrou para ele a sua realidade – nua e crua, proveniente do falecimento do amor metafísico (filos. Shopenhauer)...,
A minha intenção de ter comentado esta música do Raul e Paulo Coelho, talvez sirva como lição para que muitos de nós cristãos comecemos a olhar o mundo e as pessoas com outros olhos – ao invés de se olhar o pacote se atenha ao seu conteúdo!
O diferente não é um extra terrestre, mas um ser que procede da mesma Fonte de Vida que a sua... Considere os valores do próximo como se fossem também os seus, pois, para se viver em sociedade a soma de todos os valores cívicos e morais são essenciais para se construir um mundo onde as diferenças são apenas um detalhe, cuja percepção só enxergava no plano do imediato e do temporal. E o que for ético não se confunda com o que é estético e efêmero.
Pense Nisso!
E deixe de ser bobinho(a). (rsrsrs!)
Mano Serafim