sábado, 24 de janeiro de 2015

Anjos?


Pouco ou nada notável diante dos atentos olhares alheios.
Os ditos fantasmas são mais visíveis.
Passos a largo, sem muitos gestos, a voz não se ouvia.
Assim ele segue ocultamente neste mundo de cores.
Figura do anônimo, presença não manifesta nos bares, nos centros urbanos e nem nos palcos da vida.
Alguém perturbadoramente o avista, embora de bem distante, o acena com a mão, porém sem sucesso.
A felicidade bateu-lhe na porta, deixe-a adentrar, mas quem dirá: Fui feliz para sempre - The End - frase editada no final de cada filme.
Vai ao longe de permanecer.
Foge da retina a sua silhueta do olhar.
A luz também se foi, se faz noite, mas que lindo o crepúsculo.
O vento sopra a brisa do entardecer, a onda lambe tudo canelas abaixo...
Um grito na escuridão, era um rasga-mortalha vindo na direção do Ocidente, tudo normal, somente mais um dia árduo.
Vinda a hora do agora, descobre-se que o mundo é somente um dia, uma dor, uma calmaria e mais um instante.
Absolutamente, ele se foi, e consigo carregou a alvorada, aliás o tempo quem faz é ele, ele é o próprio tempo, o devir.
Doravante um Outro virá. 

E com ele também virá a alegria, a paciência e a brandura...
Apazigue-se o coração e aquieta-te em tua mente.
O que dirão aos jovens que desejam tudo para ontem?
- Acalmem-se e contentem-se, vocês terão inúmeros invernos pela frente.
Mas era isso, eles não discerniram com lucidez qual era a estação do desanimo. 

Eles tentaram tapar o sol com a peneira.
Dissolveram-se ante o desespero existencial de não saber para onde irão, se darão, se chegarão,  e, se sobreviverão.
O medo de viver tomou-lhes pelas mãos, nem tudo é emoção, mas o medo sequestra a razão de não sentir medo contra o medo de tudo.
Ver eles se foram, meio que invisíveis feito um vento.
Um vapor por um instante.
E quem os notou?
Poucos?
Muitos?
Não, eles não definitivamente se foram, eles não mais se manifestaram partindo. 

Eles não vieram de norte algum, eles não saíram de dentro de nós. 
Sim, eles aqui estão, fomos nós quem não os notamos.
E se porventura algum de vós notastes, deu fé de apenas um dentre centenas de milhares deles.

* rasga mortalha - pássaro de hábitos noturnos.
M Serafim (Fragmento: "Confessionário de um Sedutor"- M.S.)