segunda-feira, 8 de março de 2010

O fruto do conhecimento de fato gerou entendimento em Adão e em seus descendentes?

Quão Mau poderá ser o Mal...


Quando Deus criou o primeiro homem, da atual humanidade, representada por Adão, proibiu-lhe que comesse o fruto da árvore da noção do bem e do mal. Tendo-o desobedecido, por indução da mulher, de Eva [segundo a Bíblia], o homem incorreu em pecado e, expulso do seu lar natal, foi condenado a conquistar o sustento como o suor de seu rosto.
Mais do que o castigo do trabalho [trabalho melado de suor], que lhe seria, afinal, maravilhoso instrumento de progresso e aprimoramento espiritual, ficou como um estigma no homem a inquirição permanente e angustiante de sua mente, vivificada pela árvore da vida, cujo fruto ele comera. Assim, à fome de alimentos, que era necessário satisfazer, juntou-se a sede de conhecimentos, mais atormentador, mais premente, mais angustiosa, porque é a única que mantém o homem na sua dignidade de filho de Deus.
Imerso, porém, na dor e no sofrimento, perdido nesse mundo da relatividade das coisas, em que vive dividido pelas finitas particularidades de cada pensamento criador, solicitado pela multiplicidade dos aspectos de uma mesma verdade, vendo fragmentar-se em miríades de concepções dirigentes da mente humana. Num remoinho eterno de morte e ressurreição, num constante vir-a-ser que supera todas as fragílimas previsões do intelecto, eis que o homem perdeu a noção exata de sua culpa.
Porque fora expulso de seu lar? O que lhe acontecera, realmente, naquela manhã junto à árvore da vida? Deus criara o homem para que ele dominasse sobre toda a criação, como lhe diz expressamente; onisciente, não podia ignorar os acontecimentos futuros, e certamente conhecia a desobediência ao seu preceito. Acresce que a proibição foi dada ao homem, apenas, antes da criação da mulher; daí o fato de estar mais vulnerável à tentação. E foi por intermédio dela que o homem pecou... (Rsrsr!).
O que virá pela frente?
Sentem-se ambos nus e envergonhados e escondem-se de Deus. Juntamente com a noção do BEM e do MAL [o abismo ao discernimento entre Bem e o Mal transforma-se num buraco negro interiorizado] os seres recebem um novo e importuno habitante das profundas cavernas de sua alma: o Temor. - “Quando ouvi a tua voz no jardim senti medo!”
Daí a razão de o homem depois que comeu da árvore do conhecimento ter apenas obtido uma noção do Bem e do Mal, e não de fato saber discernir que quão Mau é o Mal!
E se o homem não entender de que o PECADO prejudica a ele próprio e jamais atingirá Deus como um Mau oriundo da incerteza diante do Bem e do Mal adquirida no Éden, resultará que a obscuridade se perpetrará no homem absorto em suas própias elucubrações...
A noção exata de sua culpa, a razão primacial da Queda, foi perdida pelo homem, através dos séculos. Embora exista uma culpa que ainda hoje esmaga a consciência de muitos crentes em Jesus, e sobre este tema trataremos depois.
Caída no reino fragmentário das idéias, a própria imagem de Deus, único, fragmentou-se em tantas imagens quantos eram temores humanos. Quebrada a unidade da criação, o homem entregou-se à multiplicidade, e, em plena orgia dos sentidos despertos, deu-se o politeísmo. Significantemente escreveu Chesterton: “quando deixamos de acreditar em Deus, acabamos crendo em qualquer bobagem”.
Ainda hoje, vemos que Deus é venerado de modos diversos em cada agrupamento humano, e que os homens dividem-se, lutam, entram em conflito, não por emulação, mas pelas suas próprias idéias a respeito do Criador; para chegar até Ele, com toda a pureza de alma, numa autêntica volta do Filho Pródigo (A síndrome da prodigalidade humana), é preciso o beneplácito de tantos embaixadores e secretários, que a EXISTÊNCIA se escoa e o homem acaba se perdendo nos intricados meandros das noções em conflito...
A verdade é que temos figurado, portanto o Pai em todo o seu poder quase tirânico, e em toda a majestade do eterno absurdo de negar consentindo..., de castigar beneficiando..., Porque a proibição do fruto do conhecimento foi um incentivo à desobediência, e o castigo foi um beneficio...[...]...
Ora, sem essas duas coisas, o homem estaria na condição dos animais desprovidos de raciocínio, ou de intelecto tão primário, que certamente não evoluiria de sua condição de ser criado e ser criador...,
E o castigo foi um beneficio, porque regando a terra com o seu suor vai o homem colhendo os frutos do conhecimento e assim rompendo em si a primitiva verdade de sua criação.
Somente a verdade poderá livrar o homem das divisões e dos particularismos em que a sua existência se perde; daí a afirmativa EVANGÉLICA ( o Evangelho produz em sua matriz existencial) de que “O Verdade" vos libertará (porque se trata de um Salvador particular).
Na raiz da Criação temos, portanto, o absurdo. É claro que as limitações de nossa mente não nos permitem deslindar a natureza desse absurdo ou então eliminá-lo por meio dos fatos. A imaginação é assim uma planície vasta em que a inteligência do homem vagueia insone e desesperada, de hipótese em hipótese; e quando ao absurdo se juntam o temor, a inibição, a timidez, configurando o quadro clínico de uma imaginação arrebatada e doentia, então a visões se sucedem, arrastando a irrealidade para dentro do real, e assim criando mundos particulares dentro do real. Fazendo que o homem, cuja alma foi tocada pelo fogo da verdade, se isole dentro de seu mundo.
O Pai é o ponto de referência. Está colocado no ápice da criação, dEle dimanam todas as coisas criadas, a para ele convergem todos os seres, seja para negá-lo em parte ou no todo, seja para amá-lo parcial ou totalmente. As interpretações humanas sobre o Seu poder e glória criam as castas sacerdotais, e estas às religiões. Milhares de caminhos abriram-se aos pés dos homens para levá-los até Deus, ou mediante a humilhação da vontade divina, que se anulava para que em seu lugar vigorasse a vontade divina, ou por meio do insensato orgulho de igualar-se ao Criador, fazendo-se figura sua na terra, ou por meio da exaltação dos sentidos na inércia da contemplação mística, ou nos intrincados raciocínios da Teologia e da Filosofia...
O que se vê é que entre Deus e os homens interpuseram-se milhares de embaixadores (mediadores-medianeiros), oradores, oráculos, santos, anjos, espíritos, e de tal modo se desvirtuou a idéia simples e pura da divindade, que, fugindo ás pompas, aos ritos, aos templos, às celebrações ditosas[grande pompa exterior], mais vezes a encontramos no refúgio humilde, onde a luz vigilante a fé sem mácula.
E o dilema se expressa no confronto entre Deus e o Homem, O Criador e sua Criatura, O Juiz e o réu inconfesso de uma falta que cometeu contra si próprio. Mas que deve redundar em seu benefício, porque por meio dela ele se afirma ser criado. Entre eles, regendo as suas relações, está a Lei.
Esta tem o Caráter autocrático, é dada ao Homem como um conjunto de obrigações e preceitos aos quais deve obedecer sob pena de castigos imprevisíveis em matéria religiosa [mesmo dada a Lei o que faculta a subjetividade em discernir entre o Bem e o Mal], criaram-se para o uso das religiões os mais espantosos castigos, no Hades dos antigos, no Inferno da cristandade [decerto de que nada tem a ver com o ‘Inferno criado’ depois da Criação onde abrigará Satanás e seus anjos].
Contudo, uma coisa é certa: existe a Lei, como existe a Verdade, sejam elas expressas e entendidas de mil maneiras particulares pelas pela mentes fragmentárias e aturdidas dos seres humanos. Para essa verdade oculta, cuja definição Cristo se negou a dar a Pilatos, nós tendemos incoercivamente pela força da nossa própria evolução; e dessa Lei imprecisa, mas atuante em nós não pode fugir, porque fazemos parte de seu sistema de forças...,
Todavia, é somente através da justiça que vem da fé no que Jesus já fez por nós, que o coração pode se assentar perdoado a fim de poder ser transformado.
Longe da Graça os ambientes que prevalecem são os pólos: do medo da quebra da Lei que dissolve a alma ou o da petrificação desprovida do favor do Amor. Um é pasta. O outro é pedra. O coração, todavia, quer ser apenas de carne.
Ao que a existência conclama ao circuncidado em Cristo: Para onde iremos nós se somente Ele detém as palavras da vida eterna?!

Nele - Quem cria o mal mas só faz o Bem,

Mano Serafim