sábado, 17 de abril de 2010

Jó, meu pai e eu...(parte II)

Assim como escrevi no Artigo parte I, relatei um pouco do “sofrimento” de Jó. Pois, também disse que é bastante diferente ter tamanha percepção da dor de alguém através da história ao contrário de ser o próprio AGENTE da história....,
Mas, hoje eu posso dizer que o meu pai sofreu tanto quanto Jó...,
Ora, eu o havia acompanhado nas suas inúmeras idas e vindas de cada internamento, salvo na UTI...,
Se eu fosse escrever um livro narrando todo o seu sofrimento, ainda seria conjecturas de alguém que viu/imaginou, mas não experimentou na pele a sua dor..., E quando o ajudei a levar a sua cruz/sofrimento/absurdo, na época de seu internamento no hospital em Salvador-Ba, eu li um livro que tinha como tema: Compreendendo Kierkegaard...,
E ali, juntos: Jó (personagem bíblico lido por mim), meu pai (eu estava flagrando o seu sofrimento) e eu (que me via com a mesma angustia de Kierkegaard). Agora entendo um pouquinho qual deveria ser o drama de Jó e de meu "velho".
Jó era um homem que jamais imaginou ser tentado por Satanás...,
O meu pai nunca deu ousadia para o Diabo...;
Jó nunca atribuiu a Deus culpa alguma...,
Eu não ouvi o meu pai blasfemar contra Deus no período que esteve consciente no hospital...
Jó só queria uma resposta para o seu sofrimento e dor...,
O meu pai desejou saber o porquê de tanto sofrimento que não lhe deixava sem dor...,
Jó não possuía nenhum manual prático contendo todo um ritual religioso...,
O meu pai nunca professou uma religião...,
Jó aprendeu através do sofrimento a dá glorias a Deus em tudo...,
O meu pai chorava invocando a Deus para que aliviasse o seu sofrimento...,
Jó "peitou" a Deus sem provas de que Deus estava por trás de seu sofrimento...,
O meu pai sabia ignorantemente que existia um Deus no céu que "permitia" acontecer o que lhe estava acontecendo...,
Jó “penetrou no tribunal divino” como um réu sem culpa impetrada...,
O meu pai sendo réu de seus pecados alcançou a salvação[eu acredito] para a sua alma mesmo seu corpo sendo entregue para ser 'queimado'...,
Qual é o contexto que vejo entre o meu velho e Jó?
Todos os dois sendo réus por nascença foram absolvidos no meio da dor e da perplexidade pelo favor imerecido de Deus (graça)....
Sim, os dois caíram nas garras da graça..Jó CRIA em um Deus que não conhecia e o meu pai confiou em um Deus que nunca O viu nos homens!
A minha, a sua e as deles... SUBJETIVIDADE ESPIRITUAL.
O que revela que seja Deus tomando o lugar do culpado e morrendo no lugar do culpado..., Deus se tornou réu-do-réu e voluntariamente como um advogado defende a causa do culpado...,
Embora a “sorte” entre o dois foi diferente, tendo Deus restaurado Jó e lhe acrescentando mais anos de vida e família...,
Com o meu pai foi diferente, Deus cessou a sua dor e sofrimento recolhendo-o para Si.
Ambos sofreram de uma simultaneidade de agravos orgânicos, como na vida de Jó, os seus “amigos” o julgavam morto e derrotado, com o meu pai, os médicos decretaram a sua morte muitas vezes... Mas, em ambos os casos, os seus dias já estavam contados e registrados no livro da existência...
Hoje me lembrei de meu pai, e o coração queria se entristecer, mas não o permitir, pois creio que ele esteja juntamente com Jó no Paraíso de Deus.
E ali o papo no mínimo seria eterno... Embora a TEOLOGIA ainda não me respondesse se algum dia eu verei o meu “velho” face a face e o reconhecerei como o meu pai...,
Todavia, tenho por certo que algum contato com ele eu terei!
Num ponto minúsculo de discernimento do atemporal imagino: Jó..., meu pai e eu. Sim todos juntos ali desfrutaremos da vida indissolúvel na habitação da Luz inacessível por longos dias...
No amor d'Ele, Cujo DEUS habita nos homens que nem ao menos sabem discernir o Seu nome: Se é Deus ou “força minha”,
Alfredo
Exatamente hoje faz trinta dias que o meu pai partiu...,
Texto escrito dia: 24/07/2009.